Dividir para governar = retrocesso!

 

Ultimamente, em virtude da autorização para o plebiscito de Carajás e Tapajós, muito se tem falado sobre as propostas de Emenda Constitucional que tramitam no Congresso Nacional e que tratam da redivisão do território brasileiro, com a criação de outros estados, a exemplos do Maranhão do Norte e do Sul, do Pará, entre outros. Aliás, parece que virou moda: existem hoje nada menos que 18 propostas de novas unidades federadas. É nesse cenário que se discute a criação do Estado do São Francisco, principalmente por causa da apresentação, feita pelo Deputado Federal Oziel Oliveira (PDT), do projeto de Decreto Legislativo, propondo a divisão da Bahia. De forma simplificada, esse Projeto propõe a separação do oeste baiano do restante do Estado, com base em dados históricos, econômicos e sociais da região oeste da Bahia, que não passam de artifícios do parlamentar para encorpar a campanha de emancipação daquela região. Parece complicado. Mas é “mais” complicado do que aparenta. Importante registrar que a identidade territorial da região em destaque vem sofrendo inúmeras investidas, inclusive históricas. Senão, vejamos: no século XVI essa região pertencia à Capitania de Pernambuco; no século XIX foi anexada à província de Minas Gerais; ainda nesse século voltou a fazer parte de Pernambuco; em 1824 voltou a ser administrada por Minas Gerais; somente em 1826 foi incorporada à Bahia e a partir de então começaram as tentativas de emancipação: a primeira, em 1830, sem êxito; em 1998, foi apresentado o Projeto de Decreto-Lei nº 631, que ganhou notoriedade, sendo aprovado em todas as Comissões, mas “estacionou” na Comissão de Justiça onde foi submetido a recurso e aguarda votação em plenário. De acordo com o projeto do referido deputado, caso seja aprovado, o novo Estado contará com todo o território baiano à margem esquerda do Rio São Francisco, englobando 31 municípios. Não é demais lembrar que essa não é a primeira tentativa de desmembrar o nosso Estado. Quem não se lembra da tentativa frustrada de criação do Estado de Santa Cruz ou Bahia do Sul (composto pelas regiões sul e extremo sul da Bahia), cuja autoria era de Fernando Gomes (ou Fernando Cuma, para os íntimos), ex-prefeito de Itabuna? Muitos ainda se lembram de ter visto muitos veículos, à época, cuja gravura era uma mão espalmada com a insígnia: Alto lá! A Bahia ninguém divide! Ainda bem que os parlamentares baianos rejeitaram o projeto. Houve uma grande reação contrária ao projeto, com apoio da mídia, Assembleia Legislativa, OAB, endossada por renomados artistas e intelectuais baianos. Tanto no Projeto antigo quanto no atual, os parlamentares argumentam que a separação é um “clamor” da população das regiões por eles representadas. Mentem. O separatismo representa o clamor, como sempre, de uma minoria. A mesma que se beneficiará com o projeto alcançando o poder, ainda que de forma indireta. Por amor ao debate, devemos registrar que, como quase tudo nesta vida, há os prós e os contras. Assim, há os que apoiam e que de alguma forma estão ligados ou à classe política ou aos produtores que acionam as engrenagens do agronegócio na região (esqueci de mencionar que a minoria é muito poderosa), e existem muitos que se posicionam de maneira contrária ao desmembramento pretendido, considerando-o um verdadeiro disparate. Só para exemplificar, imaginem, caros leitores, como seria se o sul e extremo sul baianos se desmembrassem da Bahia? Pensem na potência econômica (especialmente na pecuária e na silvicultura)! Pensem nos “conchavos” políticos! Pensem no aumento dos gastos administrativos, inclusive do número de políticos, bem como a diminuição do dinheiro para a economia e a sociedade. Misericórdia! Que caos não seria?! E o povo? Como fica o povo nessa história? Esqueci que, para a minoria que decide, o povo é sempre um detalhe! O último a ser lembrado. Ainda mais quando o agronegócio, a economia, as elevadas cifras envaidecem e adubam as ideias de separatismo regional e alcançam o topo da pirâmide em importância. Para que separar um Estado tão lindo, tão rico, com um povo tão unido e miscigenado, com cultura e identidade próprias? Sou contra o desmembramento sim, em favor da unidade territorial e cultural de nossa boa terra, a qual não é apenas de todos os Santos, mas também de todos nós. Este tipo de proposta é a oficialização da segregação de ricos e pobres, fracos e fortes. Em épocas de globalização, onde o planeta caminha para se tornar uma aldeia, mentalidades tacanhas como essa representam a contramão da história. Deveriam, sim, serem propostos mecanismos para se universalizar os subsídios cruzados em todas as áreas, onde os proventos gerados por quem mais produz fossem custear a qualificação que possibilitaria o desenvolvimento daqueles que pouco ou nada produzem. O clamor deve ser o da busca pela igualdade social, pela melhor distribuição de renda. Movimentos separatistas visam “cortar” a “banda” boa da fruta, para que poucos a degustem, enquanto os que pouco têm ficam com a banda podre, para que os impostos gerados pelos megaprodutores sejam reinvestidos em seu favor, abandonando os menos favorecidos à sua própria sorte. É a cultura dos ricos cada vez mais ricos e dos pobres... vocês já sabem como termina, não é? Alto lá! Ninguém aqui é trouxa! Simone (simone_debeau@yahoo.com.br) Veja outros textos

Notícia Postada em 02/07/2011 por: Simone
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