Vivo fosse, Frans Krajcberg faria 100 anos nesta segunda-feira (12); museu ainda é promessa

 

Por Almir Zarfeg 

Se fosse vivo, o fotógrafo, pintor, gravador e escultor Frans Krajcberg estaria completando 100 anos de vida hoje (12), pois nasceu em 12 de abril de 1921 em Kozienice, Polônia, na extinta União Soviética. Estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado. Depois, já na Alemanha, cursou a Academia de Artes de Stuttgart tendo Willi Baumeister, pintor alemão, como professor.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), Frans perdeu toda sua família em um campo de concentração nazista. Conseguiu fugir para o Brasil em 48 para reconstruir sua vida e, também, se dedicar à arte de maneira integral. "Eu fugi do homem”, costumava declarar.

Aqui, ele se isolou na floresta paranaense para pintar e, em 51, participou da 1ª Bienal Internacional de São Paulo. (Ele participaria de outras tantas bienais e mostras dentro e fora do Brasil.) Mudou-se para o Rio de Janeiro em 56 e, no ano seguinte, conseguiu a cidadania brasileira. Suas pinturas desse momento são marcadas pela abstração, nos tons ocre e cinza, com motivos naturais.  

Entre 58 e 64, Frans residiu em Paris e produziu uma gama de trabalhos – em papel japonês modulado sobre pedras e pintado a óleo e gauche – sempre tendo a natureza como motivação. Em Ibiza, em 59, ele produziu as primeiras "terras craqueladas”, que são relevos monocromáticos, com pigmentos extraídos de terras e minerais.

Em 64, o artista retornou ao Brasil e instalou seu ateliê numa caverna no pico da Cata Branca, em Minas Gerais, para se manter afastado das pessoas "como um animal machucado”. Nesse momento, abandonou as pinturas abstratas para esculpir pedras.

O saudoso Frans Krajcberg sendo entrevistado pelo poeta e jornalista Almir Zarfeg

Em 72, a convite do arquiteto José Zanine Caldas, trocou Minas pela Bahia e fixou moradia em Nova Viçosa, no extremo sul. Seu endereço era a Casa da Árvore no Sítio Natura, onde durante muitos anos assistiu ao nascer do sol com o inseparável boné na cabeça e a câmera fotográfica na mão, pronto para clicar a vegetação e trabalhar os troncos – queimados –, numa atitude em favor da vida e contra as agressões ao meio ambiente.

Além de Nova Viçosa, ele manteve um instituto com seu nome em Curitiba/PR e o Espace Krajcberg em Paris e seu prestígio se espalhou, cada vez mais, pelo mundo das artes plásticas, por causa de seu talento e originalidade, e pela sociedade nacional e internacional, por causa de sua militância em favor da natureza. Ao reaproveitar as árvores queimadas e calcinadas, transformando-as em arte pulsante, Frans fazia com que a natureza, renascida das cinzas, testemunhasse contra toda agressão ambiental: queimadas, desmatamento, exploração de minérios e a poluição de rios, solos e nascentes, a defesa das tartarugas, etc.

Bem antes de a ecologia virar tema constante dos debates e modismos, Frans mobilizara a todos com sua arte ecológica engajada, gritando em favor da natureza, denunciando os inimigos do meio ambiente com talento e coragem. Como cidadão do mundo e brasileiro, como cidadão baiano e nova-viçosense.

Muito antes do conceito de alteridade, desenvolvido por Emmanuel Lévinas, ganhar a admiração dos intelectuais sensíveis, Frans havia testemunhado a execução de milhares de judeus pelo nazismo – inclusive sua própria família. Mesmo assim, usou seu ativismo artístico e ambiental para promover o semelhante, o OUTRO e a vida no sentido amplo. A arte como catarse, empatia e libertação.

Quando morreu em 15 de novembro de 2017, aos 96 anos, no Rio de Janeiro, o artista já havia doado seu patrimônio artístico ao governo da Bahia que, em troca, se comprometeu a construir o Museu Artístico e Ecológico Frans Krajcberg, com dois prédios, para a manutenção das mil obras e, também, para a exposição desse legado à visitação pública.

Segundo o acordo – registrado em cartório – o museu seria instalado em Nova Viçosa e não em Salvador ou em alguma cidade da Região Metropolitana, como o diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), João Carlos de Oliveira, contra-argumentou. Isso mesmo. A obra poderá ser abortada em função da instabilidade apresentada pelo Sítio Natura, localizado numa área de mata atlântica suscetível à ação da umidade e dos insetos xilófagos!

Neste momento em que o saudoso Frans completaria seu 100º aniversário de nascimento, nosso grito é pela construção do tão esperado (e adiado) museu para proteção e preservação de sua obra de valor inestimável. Quanta morosidade! Que nossa impaciência artística continue sendo maior que nossa paciência burocrática!



Notícia Postada em 12/04/2021
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