A hora dos bovinos – A. Zarfeg

 

Os bovinos vêm vindo aí travem todos os currais interditem as avenidas ponham barricadas nas vias municipais Tranquem tudo à vista mantenham-se alerta evitem a coreografia digam não ao blá-blá-blá monocórdio e populista Os bovinos vêm vindo aí brancos como a neve gordos e indiferentes como os pecuaristas boçais & suas operações venais Os bovinos já chegaram em carne, osso e miúdos seu berro de escárnio baba bem-alimentada sonsidão premeditada Todo cuidado é pouco, senhoras e senhores: eles têm cara, modos e vícios de gente grande (só não vê quem é louco) Os santanas vêm aí os lisboas já passaram os correias vêm aí os botelhos já chegaram os afonsos vêm aí os batistas se mandaram Que os neobovinos não suguem o leite da vaquinha pública desgarrada da boiada pra saciar a fome da frágil criançada! Pobre vaquinha sempre à mercê da alegria dos ruminantes bem falantes da nossa terrinha no extremo sul, ba.
A. Zarfeg (poema extraído do livro Água Preta – Scortecci, 2ª edição, São Paulo, 2007)

Notícia Postada em 04/03/2008
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