“Homo Ludens”, por que não?

 

Imagine não sentir saudade... Ser incapaz de descrever, com detalhes, um cheiro, um sabor, um formato, uma cor. Privar-se de contar aos amigos, filhos ou netos as coisas boas vividas: desafios, aventuras, sensações e emoções. Vagar dia e noite sem lembranças de momentos felizes. Imagine não sentir saudade... Sem recordações de pessoas, lugares, jogos, brinquedos ou brincadeiras da infância. Sorte minha e de muitos da geração “infância feliz” em Itanhém, que saudade é presença constante em nossas vidas. Lembranças de um tempo bom, onde praças, quintais e ruas, livres de movimentação, eram palcos perfeitos para todos os tipos de brincadeiras: trisca (pega-pega), esconder (esconde-esconde), macaco (amarelinha), bandeirinha, boca de forno, cai no poço, etc. Sem falar na liberdade de subir em telhados, muros e árvores; comer fruta madura no pé. Andar de bicicleta de ponta a ponta; descer e subir ladeiras sem sentir sequer uma dorzinha. Uma academia ao ar livre! Experimente ir do Polivalente até a Praça Castro Alves, pedalando?! Não importa se pela Rua Belo Horizonte ou Avenida Maria Moreira Lisboa. Haja pernas! Ser criança no interior tinha suas vantagens, já que nas grandes cidades a tendência era que o tempo e o espaço do brincar fossem mais escassos. Todavia, atualmente a realidade é outra. Nota-se que, independente dos centros urbanos ou rurais, as formas de brincar mudaram, dissolveram-se com o tempo e com os novos ritmos de vida ditados pela nova sociedade. Pessoas cada vez mais estressadas: crianças, adolescentes ou adultos frustrados, depressivos e sedentários. Obesidade, problemas cardíacos, diabetes e várias outras complicações de saúde, antes comuns em pessoas de idade avançada, são cada vez mais frequentes nesta geração, devido à má qualidade de vida. Infelizmente, a realidade de milhares de crianças em todo o mundo é a condenação de não terem algo bom para se lembrar no futuro. Infâncias interrompidas por todos os tipos de abusos e violências: desamor, incompreensão, exploração, trabalho infantil. Já não se veem crianças brincando nas ruas. Primeiro porque, com a movimentação de carros e motos, torna-se quase impossível. Além disso, elas já não querem brincar, pois a TV, Internet e jogos eletrônicos tomaram todo espaço da “magia” que o brincar traz. Praças, antes destino do passeio matinal de domingo, tornaram-se impróprias para crianças. É cada vez mais raro um momento lúdico entre famílias: brincar, independente da idade; sentir a presença do pai, mãe, irmãos; correr pela casa, pular, jogar, rirem juntos. Tenho a impressão de que brincar virou “perda de tempo” diante de tantas opções. Nas escolas, as aulas de Educação Física apenas são mais um componente curricular, oferecendo cada vez menos atividades físicas, tão essenciais para o desenvolvimento psicomotor de qualquer criança. Palavras como criar, sentir, explorar e descobrir estão sendo esquecidas. Jogos prontos, brinquedos eletrônicos, sem quaisquer possibilidades de intervenção e interação preenchem grande parte do cotidiano das crianças, que crescem sem conhecer o tesouro que é brincar. Há tempos que o ato de brincar é levado a sério. Quer seja pela competição, ou apenas pelos jogos e brincadeiras, dentro ou fora da escola. Aparentemente inofensivos, possibilitam a compreensão de regras, disciplina, interação, limites, respeito ao espaço alheio, trabalho em equipe e irrelevância entre ganhar ou perder, fazendo-nos descobrir limitações e potencialidades. Discutir e refletir sobre a falta de brincadeiras e espaços para “o brincar” na sociedade contemporânea é essencial para uma geração de crianças e adultos melhores, consequentemente, para a construção de um mundo melhor também. A criança que não consegue vivenciar ou utilizar de forma “livre” a brincadeira pode ter funções fundamentais interrompidas, na construção de sua personalidade, segurança e autoestima. Façamos da infância o melhor lugar do mundo, a fim de que, mesmo após adultos, tenhamos para onde retornar, sempre. Permita-se! Alessandra Lisboa (alelisboa@yahoo.com) Veja outros textos

Notícia Postada em 24/05/2011 por: Alessandra Lisboa
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